Mas este nenhum mal fez

O título deste post nos remete ao texto bíblico do evangelho de Lucas, que registra o diálogo entre os dois malfeitores crucificados junto com o Senhor Jesus:

E um dos malfeitores que estavam pendurados blasfemava dele, dizendo: Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e a nós. Respondendo, porém, o outro, repreendia-o, dizendo: Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.

Lucas 23:39-41

O primeiro, apesar de uma vida de crimes e pecados, dava a entender que, se dali em diante continuasse naquele sofrimento terrível, é porque Jesus não era Deus. Estava pronto a terceirizar sua culpa, como faz o homem desde o princípio, desde Adão.

Era um argumento notável, porém extremamente racional e materialista. “Meu reino não é deste mundo”, Jesus poderia ter respondido a ele. Calado, porém, o Salvador dá oportunidade ao segundo ladrão para ser testemunha d’Ele: Mas este nenhum mal fez!

Na mente do primeiro malfeitor, a vida estava para acabar, definitivamente. Assim sendo, a única saída lógica era para baixo: descer da cruz. Era essa a ajuda que ele procurava naquela que era sua maior oportunidade na vida – estava mais perto do Salvador do que jamais estivera antes. Quantos morreram antes dele, naquele mesmo lugar, sem essa oportunidade dourada? Mas ele a desperdiça da pior maneira possível, querendo só ganhar o mundo…

A auto-piedade é um sentimento deveras pernicioso e, se nos domina, nos faz perder oportunidades igualmente únicas na vida. Ao invés de se humilhar e se reconhecer culpado, acha que Deus é injusto em não lhe socorrer como ele, homem, planeja. É o inverso da oração do Filho de Deus: “Seja feita a Tua vontade, e não a minha”. O homem natural, em seu entendimento vitimista, prefere exigir que sua vontade, má, imperfeita e desagradável seja feita, tanto na terra quanto no céu.

Mas há uma igreja Fiel, arrependida, convertida, temente a Deus, resignada, vivendo como testemunha, certa da vida eterna, do Reino que há depois da cruz, a dizer:

Mas este, nenhum mal fez!