Jonas – capítulo 2 – O lugar de oração

(Se quiser começar pelo capítulo 1, clique aqui)

Logo após ser tragado pelo grande peixe, Jonas deve ter levado alguns instantes antes de perceber que não morrera e entender que Deus estava preservando de maneira milagrosa sua vida. Este pequeno capítulo do livro se propõe a um só objetivo: nos revelar um segredo, ou ao menos um pequeno trecho dele. A oração. A oração é um segredo entre o homem e o Senhor.

Em sua passagem pelas entranhas do peixe, Jonas teve a oportunidade de ter sua sentença de morte suspensa por um tempo – que ele não podia prever quanto duraria. Essa suspensão, essa oportunidade precisava ser aproveitada ao máximo. O livro não menciona qualquer oração de Jonas antes de ser tragado pelo peixe. O peixe foi para ele um lugar de oração. Jesus, ao purificar o templo, bradou entre chicotadas: “Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; mas vós a tendes convertido em covil de ladrões“, Mateus 21:13. Se estou na casa de oração e não busco a salvação de Deus em oração, eu mesmo sou um ladrão, roubando de mim mesmo o direito ao bem maior, ao maior tesouro: a salvação.

Jonas não orou por outra coisa, a não ser por salvação. Não pensou em pedir uma casa melhor, uma despensa cheia de alimentos, roupas finas, dinheiro, fama, prosperidade… Prosperar para Jonas era ter sua vida preservada, escapar da ira do Todo-Poderoso. Não havia como pensar em outra coisa. O ruído das águas que rodeavam o peixe era aviso pra Jonas, o juízo está perto! O que separava Jonas do castigo que o seu pecado merecia era apenas o corpo vivo do peixe. É apenas a estrutura viva do Corpo de Cristo que nos preserva até ao momento em que Deus, o Pai, dará a ordem final, para que Seu propósito se cumpra e sejamos colocados em um lugar de eterna segurança.

Jonas considera sobre isso no trecho da oração dele que nos é permitido conhecer aqui. Ele não faz nenhuma queixa em sua oração. A não ser de si mesmo. “De que se queixa, pois, o homem vivente? Queixe-se cada um dos seus pecados“, Lamentações 3:39, escreveu o profeta Jeremias. Jonas confessou suas falhas, seus pecados, clamou por misericórdia, fez compromissos com Deus, reconheceu o principal: Do Senhor vem a salvação! Entender a salvação é o grande objetivo do Senhor em nos trazer para esse Corpo vivo.

Enquanto Jonas aprendia a obedecer, padecendo, sujeitando-se aos movimentos imprevisíveis do peixe, ele que antes decidia para onde ia, foi sendo moldado, quebrantado, como foi o Filho de Deus durante sua vida terrena. Lemos isso na carta aos Hebreus: “Ainda que era Filho, aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu“. Hebreus 5:8 . Ora, se o próprio Filho de Deus aprendeu a obediência padecendo, não seria diferente para Jonas, para mim e para você.

Jonas precisava de que o peixe permanecesse vivo. Se o peixe morresse, ele morreria também. Isso pode ter sido, em algum momento daqueles três dias, motivo de oração de Jonas. Ore por esse Corpo vivo, caro leitor. Ore pela sua igreja, para que ela, viva, tenha condições de manter sua vida também. Se sua igreja morrer, você morre também. Não se queixe dela, não a machuque por dentro.

Por fim, vamos considerar o seguinte: Jonas não tinha a menor ideia de quando aquela “aventura” iria acabar. Não tinha relógio, não tinha qualquer referência do passar do tempo. Talvez lá pelo segundo dia tivesse a impressão de estar ali por semanas, ansiando por escapar. Só uma coisa abreviaria sua passagem por todo aquele aperto: a oração. Assim também nós não sabemos quanto tempo ainda nos resta até que soe a ordem do Todo-Poderoso que trará o tão esperado livramento ao povo que Ele está moldando nas entranhas do Corpo. Talvez alguns que leem este texto estejam já se cansando de esperar. Mas precisamos – precisamos – orar mais e melhor. “E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé“. Romanos 13:11. Não desanime, recobre as forças para orar, para se humilhar, enquanto Deus completa Sua Obra em sua vida, fazendo de você o homem, a mulher que Ele deseja que você se torne.

No próximo texto, veremos o capítulo 3 mostrar que Jonas não era mais desobediente ao Senhor. Isso permitiu que Deus fizesse dele o maior evangelista da história bíblica. Espero você, até lá.

 

Jonas – capítulo 1 – O grande peixe

Vou começar aqui hoje uma série de posts sobre o livro de Jonas. Claro que não é meu propósito esgotar o livro. Proponho comparar o caminho do profeta com o nosso caminho na presença do Senhor. Vamos lá:

Já falamos sobre esse profeta aqui e aqui mas hoje vamos relacionar o primeiro capítulo com a nossa própria condição lá, no início da caminhada com Deus.

O que você sabe sobre Jonas? A única informação que o livro nos traz é de que ele era filho de Amitai. Aliás, uma possível tradução do nome Amitai é “minha verdade”. Cada um tem a sua própria “verdade”. Por isso somos naturalmente rebeldes, desobedientes a Deus. Somente essa característica de Jonas nos é apresentada pelo texto bíblico. Não sabemos se era rico, pobre, culto, inculto, pai de filhos ou mesmo se era casado. Mas temos a certeza de estar diante de um desobediente. Assim a história de Jonas encaixa na minha e na sua história: somos naturalmente rebeldes, insisto.

Deus tinha um caminho pra Jonas. Ele escolheu – pois era livre – outro caminho que lhe pareceu bom. Se lesse o livro de Provérbios, se lembraria de que há caminho que ao homem parece ser bom, mas seu final é a morte. E começou a descer. Desceu a Jope, desceu ao navio, desceu ao porão do navio e, por fim, desceu ao mar. Todo caminho de desobediência a Deus é de descida. Nesse caminho de descida, encontrou um lugar perigosamente confortável: as entranhas do navio. Ali ele tinha a – falsa – impressão de estar seguro diante da terrível tempestade trazida pela mão do Todo-Poderoso, irado contra sua desobediência. Muitos hoje, em sua rebeldia natural, traçam seu próprio caminho e encontram, nas estruturas feitas por mãos de homens, a ilusão de segurança que os faz adormecer. Mas, diz a Bíblia, o navio estava para quebrar-se. Assim estão todas as estruturas humanas, seja a religião, a filosofia, o dinheiro, a cultura, qualquer construção humana que vise trazer para si segurança: estão para quebrar-se sob o juízo do Senhor, que fez o céu, a terra e as fontes das águas.

Mas o capítulo não tem como foco a ira de Deus, tão somente. Sob as águas, escondido ainda, estava o recurso de Deus para o ser humano desobediente, mas tão amado por Ele: o grande peixe, preparado pelo Senhor com o propósito único de salvar Jonas. Chamo sua atenção para a palavra “preparou”. Ou seja, antes de tudo isso acontecer, Deus já tinha um “salvador” aguardando a ordem do Criador para ir ao encontro dele, afinal, ao contrário de Jonas, o peixe era obediente. O peixe obediente “esconde” a desobediência de Jonas da vista do Senhor, por assim dizer. Com isso, o mar da ira de Deus se acalmou. Esse ser vivo, preparado por Deus para esconder e, ao mesmo tempo, proteger Jonas é figura do Corpo vivo do Salvador Jesus, a Igreja Fiel, que nos acolheu e escondeu.

É bem verdade que qualquer que visse o peixe tragando Jonas, pensaria que isso era uma tragédia. Nunca se vira algo assim, como a história de Jonas no ventre do peixe. Não havia como prever um final feliz para isso. Ser “tragado” pela igreja hoje ainda é algo assustador para a maioria das pessoas que olham para ela como se esta fosse um monstro devorador de pessoas, sem entender que Deus a preparou para que ela fosse esconderijo e salvação ao homem, no meio do mar da ira e do juízo do Senhor.

Por fim, quero ressaltar aqui as diferenças entre o navio e o peixe. Enquanto o navio é construído e conduzido pelos homens, o peixe é criado e obediente ao Deus Criador. Enquanto o navio proporciona lugar de repouso para o homem, adormecendo sua consciência, a dinâmica do peixe não deixou Jonas dormir. Ele precisava orar. Precisava lutar para aguardar o momento que Deus tiraria ele daquele aperto. Ao contrário do navio, o peixe permitiu que Jonas passasse pelos abismos mais profundos da vida e permanecesse com vida. A igreja não é o lugar confortável que nossa carne deseja, mas tem todo o recurso para nos preservar a vida e nos ajudar a passar pelos momentos mais difíceis da existência – perdas, lutas, amarguras – enquanto aguardamos o momento em que a ordem de Deus soará e estaremos para sempre em lugar seguro. Aí então iremos, como Jonas, retomar o projeto que Ele tem para nossa existência, que foi interrompido pela nossa rebeldia e desobediência.

No próximo post vamos compreender como a atitude de Jonas nas entranhas do grande peixe traz ensino para o momento em que vivemos. Até lá.